Um belo dia decidi mudar….Angola

“E cada dia que passa percebo que alimentar preconceitos, seja de raça, credo ou nacionalidade, é uma grande perda de tempo na vida. O mundo está cheio de pessoas interessantes. Basta se despir dos preconceitos e aproveitar o que cada um tem de bom.” Brenda Ramos

Brenda com crianças na Praia de Cabo de São Brás/ Bengo/ Angola
 
 O Inquietude Brasileira dessa vez mudou de continente e trouxe agora notícias de Luanda em Angola, no continente Africano.
Isso mesmo, quem vai dar a honra de contar um pouco mais sobre sua experiência em fora do Brasil é a baiana Brenda Ramos. Morando a pouco mais de dois anos no país, ela faz uma análise crítica e detalhada das semelhanças e diferenças entre a Bahia, estado cuja maioria é negra e a terra da qual descende muitos dos brasileiros.
Bom, O Inquietude Brasileira espera que você consiga viajar e se encantar com a África vista pelos olhos dessa baiana arretada.


Nome e idade:
Brenda Ramos, 32 anos
 
Terra Natal:
Salvador, Bahia 
 
Lugar em que mora atualmente e há quanto tempo:
Luanda, Angola. Fiz 2 anos dia 26 de Novembro! :)
 
Mora com quem?
Moro com duas colegas também estrangeiras, uma brasileira e outra portuguesa.
 
É casado (a)? Tem filhos?
Solteira e sem filhos.
 
Já morou em outros lugares antes?
Não… a primeira vez foi essa!
 
Teve dificuldades quanto a visto? Quais? 
Não, tem sido tranquilo. Mas para entrar em Angola não é algo simples. Mesmo a turismo é preciso ter carta-convite e ir ao consulado angolano no Brasil dar entrada, seja no Rio ou em SP.
 
Do que sente mais saudade de sua terra natal? 
Vixe… muita coisa! Mas principalmente da família, dos amigos, do meu cão, do mar de Salvador, da Chapada Diamantina e da comida típica da Bahia (feita por minha mainha, claro!!)
 
O que acha mais interessante do local/ pessoas onde mora atualmente? 
Logo quando cheguei achei as pessoas muito parecidas com os baianos,  seja pela pele ou pelo andar. Luanda tem uma arquitetura muito parecida com Salvador, acho que por causa da colonização portuguesa. Mas com o tempo vamos percebendo as diferenças no jeito de lidar. Apesar do riso solto, o angolano é mais sério e assim como os europeus, estranham a nossa forma expansiva de agir e nosso jeito de “falar pegando” nas pessoas. Há um estranhamento inicial no tratamento, mas depois que ganham confiança logo se aproximam e são muito gentis. Das características do povo daqui o que mais me comove é a forma bonita como se referem aos mais velhos. Aqui o idoso é extremamente respeitado, não são abandonados quando envelhecem e participam das decisões familiares como a voz que decide. Só pra ter noção, nos estabelecimentos daqui não existe fila para idosos como no Brasil. Eles simplesmente podem passar à frente em qualquer fila e ninguém vai reclamar com o velhinho por isso. Muito massa! 😀
 
 
O que considera mais estranho/engraçado em termos de comportamento do local ou das pessoas daí? 
Luanda é uma cidade de muita desigualdade: quem é rico é milionário e os pobres vivem na mais absoluta miséria. Então vemos coisas muito loucas, tipo, na mesma rua onda existe o prédio que contém a cobertura mais cara de toda a África (com heliporto particular e tudo mais), vão estar pedintes, lixo e lama acumulados pelas calçadas.
Aqui a ostentação leva as pessoas a fazerem mais questão de ter um bom carro e um bom terno do que investir em sua casa ou na sua educação.
E os carros são sempre imensos, sendo que a cidade é antiga e sem estrutura para estacionamentos, ou seja, criam-se 2(duas) filas de estacionamento nos acostamentos. Quem estaciona no lado, na segunda fila, deixa o telefone no vidro, para que o motorista que foi fechado possa ligar e ser liberado.
Acho engraçado o fato de às sextas-feiras muitos noivos irem à Baía de Luanda para tirar fotos (vestidos para a festa) e levam toda a família. Mas são muitos MESMO. Já fui correr lá um dia desses e vi 12 noivas em 2,5km. Rsrsrs!
Ah, sexta-feira também é chamada aqui de “Dia do Homem”, quando eles saem pra o happy hour sem hora pra voltar pra casa. Só que com certeza as angolanas não ficam em casa vendo novela… rsrs!
 
 
Qual o meio de transporte que costuma usar? 
Aqui uso o carro da empresa para me deslocar sempre. O transporte público não funciona bem, tendo opção apenas de vans que eles chamam de “táxi” ou “candonga”. São pintadas de branco e azul e atendem apenas algumas partes da cidade, o que faz os cidadãos andarem bastante até um ponto. Tem ônibus também, mas poucos. Trens são bastante usados por quem mora nos arredores, mas também são poucos… Recentemente foi inaugurado um sistema de ferryboat. Enfim, Luanda ainda precisa evoluir muito na mobilidade urbana.
 
Como é a segurança pública onde mora? 
Complicada, apesar de que me sinto mais segura aqui do que em Salvador, acredite. Porém, moro e trabalho no Centro, portanto, não tenho lidado com situações de violência constantemente. Já fui assaltada saindo de um restaurante aqui, mas sinceramente, acho que poderia ter sido em qualquer lugar do mundo. O que mais me deixa indignada é a abordagem dos fiscais de trânsito que acabam quase sempre (não posso generalizar!) pedindo propina, que aqui é chamada de “gasosa”. E gasosa aqui é “refrigerante”. Ou seja, também não estranho demais, pois no Brasil esse método acontece bastante. Sempre tem a do “cafezinho”. Mas aqui acontece numa proporção muito maior e isso me causa incômodo. 
 
Como é custo de vida de onde mora? 
Altíssimo. Luanda é APENAS a cidade mais cara do mundo para se viver. Segundo uma pesquisa recente, nos últimos dois anos ultrapassou Tóquio, que sempre era a mais cara. Tudo aqui é absurdamente caro. 
  
Em algum momento sofreu discriminação por ser estrangeiro (a)?
Sim. Por ser estrangeira, por ser mulher e por ser jovem. Alguns acham que viemos para roubar a vaga de trabalho dos nacionais, quando na verdade viemos para ajudar o país a se desenvolver. Angola tem um perfil machista, o que atrapalha a avaliação da qualidade profissional da mulher no mercado de trabalho (mas isso está mudando, pois as angolanas estão ficando cada vez mais independentes). No mundo todo a brasileira é estigmatizada por uma carga “sexual” e isso nos coloca em posições muitas vezes constrangedoras não somente com os angolanos, mas também com todos os outros estrangeiros que aqui moram. É muito difícil lidar com isso.
 
O que te inquietava e te fez decidir mudar de país?
Eu estava bem colocada no mercado da minha cidade, mas ainda me sentia insatisfeita. Para isso eu preciso sempre de motivação, de expectativas, de planos e metas. O mercado no Brasil já não abarcava isso. Foi quando eu recebi um convite de uma amiga que hoje é minha coordenadora aqui e que já havia trabalhado comigo no Brasil. Não pensei duas vezes e aceitei. 
O convite veio no momento certo, pois não tenho compromissos afetivos e nem financeiros no Brasil. Então…fiz as malas e vim!
 
Você trabalha com o que? 
Sou jornalista e tenho especialização em Comunicação Corporativa. 
 
A necessidade, com toda certeza, faz-nos desenvolver habilidades antes desconhecidas. Acha que a mudança de país fez desenvolver em você algum talento antes desconhecido? Qual?
Eu não sabia que eu tinha tanta capacidade para lidar com o diferente. Acho que minha compreensão sobre o outro fez a minha adaptação aqui ser muito boa. Sinto-me mais madura, porém, fui obrigada a criar uma “bolha” para sustentar minha personalidade e meu caráter. Angola não é um mar de rosas e, por ser um lugar onde se transita muito dinheiro, é também um lugar onde existem muitas pessoas inescrupulosas, gananciosas e interesseiras. Então, infelizmente, me tornei uma pessoa mais desconfiada.  
 
Considera-se uma pessoa inquieta? 
MUITO! Rsrs! Às vezes mais até do que deveria! Essa vontade de mudar e fazer coisas diferentes nos move, mas eu, como boa sagitariana, tenho sempre muitos focos ao mesmo tempo e nem sempre consigo realizar todas as minhas vontades. Mas o que tenho conseguido já me deixa muito orgulhosa.
 
Sabe a língua local? Considera importante? 
Em Angola se fala português. O sotaque é mais parecido com o de Portugal, portanto, é meio embolado… Mas depois nosso ouvido acostuma. Aqui existem as línguas ancestrais, que eles chamam de “línguas nacionais”, são 6 (seis) ao todo, mas a mais falada é o Kimbundo. Algumas emissoras de rádio e tevê têm programas especiais falados em línguas nacionais, pois existem lugares mais remotos em que o português não é falado. Ah, e não chame de “dialeto”… eles vão te corrigir e dizer “Não é dialeto, é LÍNGUA NACIONAL”!! Chamar os idiomas ancestrais de dialeto é ofensivo.
 
Sabe falar mais alguma língua? 
Eu tenho inglês intermediário, que é muito útil aqui também, já que Luanda tem gente do mundo inteiro.
 
Conhece muita gente do seu país de origem onde mora atualmente? 
A maioria das pessoas que convivo são brasileiras. A empresa que eu trabalho é composta por baianos, em maioria…
 
Como foi a adaptação ao país que vive? Tem amigos? 
Foi boa, me adaptei facilmente pois, como disse acima, me identifiquei bastante com a cultura daqui. Parece muito com Salvador. Acho que minha personalidade mais expansiva e sociável também me ajudou aqui. Sim, tenho amigos e de nacionalidades distintas, o que me faz aprender coisas novas sempre. 
 
Sua visão de mundo mudou após essa mudança de vida?  Qual foi a diferença? 
Ah, com certeza. Sinto-me mais madura e mais responsável com minhas atitudes e com as consequências delas. E cada dia que passa percebo que alimentar preconceitos, seja de raça, credo ou nacionalidade, é uma grande perda de tempo na vida. O mundo está cheio de pessoas interessantes. Basta se despir dos preconceitos e aproveitar o que cada um tem de bom. 
 
Tem alguma dica para quem deseja morar aí? Qual? 
Venha sem medo e sem preconceitos. Não vejam os angolanos como pobres coitados, pois não são! São pessoas sofridas que saíram de uma guerra civil há 12 anos, mas são pessoas altivas, guerreiras, batalhadoras.  Se você tratar a África bem, ela vai cuidar muito bem de você.
  
Pensa em voltar para sua terra natal? 
Não agora.
 
Pensa em morar em outro país diferente? Qual? 
Não sei dizer neste momento… Mas também não penso em voltar pro Brasil tão cedo…
 
Quais são seus planos para o futuro? 
Quero evoluir na minha profissão, me envolver em projetos interessantes, viajar muuuuuuuuuito e arranjar um tempo para voltar a estudar. Sinto falta da sala de aula!
Foto tirada por Brenda Ramos


Banco Nacional de Luanda(Brenda Ra

Sê o primeiro

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *