Um belo dia decidi mudar….Irlanda

A visão de mundo acredito que não tenha mudado, pois sempre tive uma visão expansiva sobre ele, mas a minha visão de mim mesma mudou muito. Aqui entendi concretamente o que diz Simone de Beauvoir : “Não se nasce mulher, torna-se”. Lucia Ellen de Almeida
Lucia Ellen de Almeida em Portobello (Dublin)

O Inquietude Brasileira reinicia sua série de entrevistas a brasileiros no exterior com uma maravilhosa estória de uma paulistana que questionando sobre si mesma resolveu buscar as respostas em outro país.
 
A sua estória mostra claramente que as aparências sociais realmente enganam. Que por trás de uma aparente estabilidade pode haver uma total instabilidade. E que às vezes é necessário fazer uma reengenharia na própria vida na busca pelo eixo.
 
A entrevistada faz o leitor se emocionar e admirar a capacidade da mesma em se reinventar. O local escolhido foi Dublin, na Irlanda, onde, como intercambista, passou a viver uma nova realidade completamente diferente a qual estava acostumada no Brasil, mas com certeza muito enriquecedora.
 
Deliciem-se com a essa linda estória e a usem como incentivo e motivação nesse período de reflexão e definição de metas e objetivos para esse ano que se inicia.


 
 
Nome e idade | Terra Natal | Lugar em que mora atualmente e há quanto tempo.
Eu sou a Lucia Ellen de Almeida, brasileira paulistanissima, 28 anos e estou morando em Dublin há 6 meses.
 
Mora com quem? 
Aqui, eu escolhi morar em uma casa apenas com irlandeses, pois o objetivo era além de aprender inglês também entender um pouco da cultura. Então, alugo um quarto numa casa de família (que se tornou meu suporte/família aqui).
 
 
É casado (a)? Tem filhos? | Já morou em outros lugares antes?
Faz um ano que me divorciei, não tenho filhos. sempre tive muita vontade de fazer intercâmbio, cheguei a comprar um programa de aupair  mas acabei não indo, conheci meu ex-marido no meio do caminho. Então esse é o meu primeiro lugar fora da minha São Paulo que moro.
 
Teve dificuldades quanto a visto? Quais?
Vim, como a maioria dos brasileiros vêm para a Irlanda, com visto de estudante; então é quase fácil tirá-lo e vc deve aplicar aqui, quando chega. Parece um bicho de 7 cabeças mas não é, o último estágio é no departamento de imigração que, assim como no Brasil, é bem demorado e tem uma fila sem fim. Foram 5 horas de espera até finalizar o processo.
 
O clima dentro desses departamentos, apesar da simpatia apática (não sei explicar como isso é possível), é bem tenso e cansativo.
 
Do que sente mais saudade de sua terra natal?
Eu sinto, sem dúvida, muita saudade da minha família e dos meus amigos, de algumas comidas que são difíceis de encontrar aqui (como dadinho, sonho de valsa, tapioca, pão de queijo, pastel) e do rodízio de comida japonesa, que amo e aqui é caríssimo!
 
O que acha mais interessante do local/ pessoas onde mora atualmente?
O irlandes é mesmo muito amigável, atenciosos, mas reservados. Não é pq ele conversa com qualquer um no pub que ele vai te contar a vida dele. Ele não quer saber sobre a sua vida ou falar sobre a dele, ele é um contador de histórias, divertido, ele quer falar de antigas lendas, de histórias do pub, quer ver q vc está interessado na cultura local! 
 
As mulheres (pois vivo apenas entre mulheres na casa) são fortes, decididas e extremamente femininas. Elas são de fato Grameile (conto de fadas irlandês), a princesa que “decidiu ter a vida mais excitante do que poderia se esperar de uma garota naqueles tempos” e ela teve, se tornou chefe da guarda real à pedido da rainha. 
Eu me identifiquei muito com a cultura daqui, me sinto em casa.
 
O que considera mais estranho/engraçado em termos de comportamento do local ou das pessoas daí?
O que no início foi estranho para mim é o fato das pessoas se comprimentarem apenas com oi, sem tocar! E quandoo elas vão embora, muitas vezes elas só dão “tchau” para quem elas foram visitar, não interessa se tem mais gente dentro da casa… no inicio foi muito estranho, eu não sabia o que fazer, sentia que estava faltando algo, ficava completamente desconcertada. Mas agora é “quite normal”.
 
Já precisou de atendimento médico? Como foi?
Nunca precisei de atendimento médico, por isso não sei como é.
 
Qual o meio de transporte que costuma usar?
Aqui o transporte público não é barato, pelo menos não para mim, por isso adotei a bicicleta como meio de transporte e estou muito feliz com a escolha! Vou para todo o lugar, vejo paisagem diferentes o tempo todo e ainda me exercito, é perfeito! 
 
Quer dizer… quando o vento está muito forte, é um grande problema, pois aqui venta muito e o vento sempre está contra você, não importa para qual lado você está pedalando! Já cheguei a demorar o dobro do tempo para chegar em algum lugar por causa do vento. Ele pode ser tão forte que você é literalmente carregado, é preciso tomar cuidado para não cair e, em alguns casos, você precisa descer da bicicleta, pois não é seguro pedalar.
 
Como é a segurança pública onde mora?
Aqui é muito seguro, mas é obvio que você não pode “vacilar”. Não é porque estamos na Europa que você pode descuidar da bolsa ou do celular na mesa do pub.
 
Em algum momento sofreu discriminação por ser estrangeiro (a)?
Já, foram pequenas coisas como ser alvo de piadas, brincadeiras idiotas, esse tipo de coisa. Acho que o mais “pesado” foi uma vez que cheguei em uma casa, depois de fazer a limpeza, a mulher me disse “ficou muito bom, eu quase desmarquei quando vi que vc era brasileira, por que os brasileiros costumam não aparecer ou não trabalhar direito”.
 
O que te inquietava e te fez decidir mudar de país?
Eu tecnicamente tinha uma vida perfeita aos olhos dos outros! Eu trabalhava como estilista numa multinacional, ganhava muito bem, tinha meu apartamento, meu marido que era incrível… só que não estava feliz. Eu percebi que eu vivia as expectativas alheias, não o que de fato meu coração deseja. 
 
Quando me dei conta disso entrei num processo de desconstrução, tudo começou a cair: decidimos nos separar, somos amigos e não me arrependo de nada que vivemos juntos, foi um tempo muito divertido mas que não fazia mais sentido; eu estava completamente infeliz no trabalho e acabou que fui desligada (vc pode ler o texto que escrevi sobre isso aqui https://euimaginario.wordpress.com/2014/03/17/o-dia-que-devolveram-minha-vida/)… 
 
De “um dia para outro” eu me vi sem nada o que me segurava, é preciso colocar tudo no chão para reconstruir e assim estava minha vida – no chão. Decidi que iria retomar meus sonhos (o maior de todos era fazer um intercâmbio), passar um tempo introspectivo em busca do meu EU, em busca de uma nova profissão, algo que me completasse — queria estudar mais sobre os misticismos que amo (minhas cartas xamânicas e o tarot tradicional) —  e aqui estou.
 
Você trabalha com o que? 
Aqui eu trabalho com tudo o que aparece, pois não é barato se viver e como só tenho permissão para trabalhar 20h semanais, é ainda mais dificil. Eu não queria trabalhar como aupair, então comecei fazendo limpezas sempre conversando sobre meus “dotes” artísticos. Por fim, continuo com as limpezas, mas também dou aula de arte para crianças que é uma realização pessoal.
 
Como é custo de vida de onde mora?
Para mim o custo de vida é alto. É possivel sobreviver com o básico, mas se você quer ter vida social, ir para pubs, restaurantes, festas e afins… a coisa pesa. Aqui é assim: você consegui comprar roupas baratas, a base da alimentação também, se comprar bebida alcoólica no supermercado consegui achar alguns vinhos e cervejas baratos, mas é isso.
 
A necessidade com toda certeza, faz-nos desenvolver habilidades antes desconhecidas. Acha que a mudança de país fez desenvolver em você algum talento antes desconhecido? Qual?
 
Nossa! Aqui eu descobri que posso ser qualquer pessoa… descobri muitas habilidades desconhecidas: sou capaz de cozinhar qualquer coisa e elas ficam extremamente gostosas; aprendi a vender o que for necessário; é preciso muita sensibilidade e força para criar novas conexões, fazer novos amigos; se esvarir de qualquer preconceito que tenha sobrado, foi um desafio enorme entender que qualquer trabalho é digno (é fácil falar, quando me vi na situação é que me dei conta dos preconceitos que haviam encravados nas profundezas do meu ser).
 
Acredito que o autoconhecimento é a chave para se morar longe da família e dos amigos; preciso dizer que vim para cá sem conhecer ninguém, sozinha, apenas com o coração aberto a novas experiências.
 
 
Considera-se uma pessoa inquieta?
Completamente inquieta desde que sou criança! O que mais ouvi a vida toda de meu pai foi “Você é a minha única filha no meio de 3 meninos, porque você é a única que sempre faz coisas diferentes e inquietas: Você é a única que tem tatuagem, a única que viaja sempre, a única que foi morar longe.”
 
Quando eu era criança, costumava dizer para a minha mãe que eu precisava fazer alguma coisa pelo mundo, eu queria conhecê-lo e mudá-lo para que fosse melhor do que eu sentia.
 
Sabe a língua local? Considera importante?
Eu sabia um pouco de inglês sim, sabia me virar. Eu acho importante sim, estar longe do seu pais de origem te deixa vulnerável e se eu não conseguisse me comunicar me sentiria ainda mais insegura.
 
Sabe falar mais alguma língua?
Ainda não, mas assim que terminar o inglês quero fazer espanhol.
 
Conhece muita gente do seu país de origem onde mora atualmente?
Não. Conheço o pessoal da escola, mas como disse vim sozinha e hoje tenho mais amigos de outras nacionalidades do que brasileiros.
 
Como foi a adaptação ao país que vive? Tem amigos?
A casa em que moro me ajudou muito, aos pouquinhos fomos nos aproximando e hoje elas são a minha família aqui. Não tenho certeza se eu estivesse morando em outra casa se conseguiria ter ficado, acredito que não. Temos muitas coisas em comum, o que ajudou na nossa aproximação. 
 
Os primeiros meses foram muito dificeis, me sentia pela metade: metade estava extremamente satisfeita com a escolha, pois aqui me sinto em casa, sinto que aqui estou exatamente onde deveria estar ao mesmo tempo, sentia metade de mim no Brasil, queria a minha família, meus amigos, os abraços, as risadas altas, a bebedeira sem jogos de cartas ou perguntas e respostas… Hoje tenho alguns amigos, poucos realmente próximos, mas estou feliz.
 
Sua visão de mundo mudou após essa mudança de vida?  Qual foi a diferença?
A visão de mundo acredito que não tenha mudado, pois sempre tive uma visão expansiva sobre ele, mas a minha visão de mim mesma mudou muito. Aqui entendi concretamente o que diz Simone de Beauvoir “Não se nasce mulher, torna-se”. Hoje me sinto mulher, antes eu me sentia meio menina meio mulher. 
 
Descobri algumas peculiaridades de minha personalidade extremamente brasileiras e percebi que alguns pontos de minha essência que pareciam tão desconexões da cultura brasileira são partes da irlandesa. É interessante, hoje me sinto mulher do mundo!
 
Tem alguma dica para quem deseja morar aí? Qual?
A partir do momento em que decidiu mudar para outro país, você precisa ler um pouco sobre a cultura e costumes antes, para já se preparar. Também é necessário ir com o coração aberto, esquecer “julgamentos” em casa. 
 
A noção de “certo e errado” está intimamente ligada há cultura e seus valores, muitas vezes nos deparamos com as diferenças da outra cultura e se você não estiver aberto, deixará passar a grande oportunidade de entender que sempre há outras respostas “certas”, não apenas uma que aprendeu desde criança.
 
 
Pensa em morar em outro país diferente? Qual? | Pensa em voltar para sua terra natal? | Quais são seus planos para o futuro?
Eu gostaria de depois de assar um tempo em algum país que falasse espanhol. Não tenho certeza sobre o futuro. Costumo dizer que me encontrei aqui na Irlanda e hoje possuo um coração metade verde bandeira e metade verde Irish. 
 
Além disso, estou me permitindo andar com o presente, não planejar muito os próximos passados, ver o que o universo reserva para mim. Não é fácil, pois sempre tive tudo muito bem planejado, mas acredito que também seja uma lição do intercâmbio.

 

 

 

Estátua no Garden of Remembrance (Dublin)) Por Lucia Ellen
O grande Canal em Dublin Por Lucia Ellen
Clifden perto de Galway Por Lucia Ellen

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