Voltando pra Casa quer ouvir você…


O Inquietude Brasileira querendo saber um pouco mais das sensações que se processam internamente quando da decisão de retornar ao local de origem, após uma temporada fora, convidou uma baiana muito especial, que transcende alegria e entusiasmo em tudo o que faz. Após uma temporada de cinco anos passando por alguns países e se reinventando, ela voltou as suas raízes e retomou a vida no Brasil.  Ela carinhosamente escreveu esse lindo texto para o nosso blog. 
Leia e delicie-se.

Os vários lugares visitados, as várias facetas, as várias experiências.

Saindo de casa

Vivi fora do Brasil numa jornada de aproximadamente cinco anos, que fora motivada por um desejo de mudança. Após haver concluído a faculdade e sentir a necessidade de aprimorar idiomas, eu e meu ex-marido (na época noivos) resolvemos unir o útil ao agradável e “tentar a vida” concretizando o sonho do casal de casar e viver uma aventura – que sabíamos que podia transformar as nossas vidas. Esse anseio por realizar sonhos e o anseio por mudanças nos levou à Espanha (Madrid), Portugal (Porto), Inglaterra (Londres) e Escócia (Wishaw) e foi assim que a vida me conduziu por rumos desconhecidos e fui agarrando com determinação e coragem cada oportunidade de ganhar o sustento para manutenção de uma aventura que tinha seus custos e também de atuar em diversas atividades que estavam totalmente fora do meu imaginário, (Dentre elas: salva-vidas, atendente de cassino, baby-sitter, faxineira e garçonete), me permitindo viver uma das experiências mais significativas da minha vida, onde foi possível ganhar: amigos, experiências, aprendizados; e também foi preciso perder (o que para mim foi mais difícil): momentos em família que não voltam (casamento de irmãos, nascimento de sobrinhos, etc). Mas quando se tem a consciência de que tudo na vida é decisão, que tudo tem seu momento e que tem oportunidades que são únicas, eu fiz a minha escolha e me joguei de corpo e alma numa aventura fantástica, inesquecível e que promoveu transformação.

Certamente não haverá espaço suficiente aqui para descrever essa história em poucas linhas, foram tantas coisas, entre tantas outras coisas. Tanta gente envolvida.  


“Nada nunca foi um mar de rosas, mas valeu a pena!”


Não encontrei de fato dificuldade expressiva em me adaptar aos países e à cultura de cada lugar – e tanto na chegada, quanto no regresso foi necessário vivenciar a necessidade de transformação na prática. A vida me propôs resiliência e me adaptar ao tempo e às coisas foi me permitir crescer num voo livre e ascendente. E assim foi feito, me permiti viver cada mudança proposta, cada desafio. Sem rodeios, eu vibrei a cada chamado da vida. Com tantas mudanças de um país ao outro, desapeguei de tantas coisas, percebi o real valor da vida e me tornei alguém que considero melhor e mais feliz.


Saí de um país em desenvolvimento para viver em países que proporcionavam a sua população uma estrutura muita mais robusta e socialmente igualitária. Saí de um país de clima ameno e pessoas festeiras e fui viver os extremos da temperatura e sinceramente, me deparei com coisas boas e ruins, como em todo lugar desse planeta, creio! Não gosto de ficar comparando por comparar, tudo se justifica na história, o Brasil é um país jovem e tem muito que se resolver, mas o mais importante foi o poder de análise que essa experiência me proporcionou. Com as diferenças culturais e com o comportamento das pessoas, pude me perceber melhor e entender que o mais importante é viver com amor e verdade o que se escolheu viver, superando com fé cada desafio e equilibrando sentimentos.

Voltando para casa

As sensações foram inúmeras, um misto de emoção pelo retorno e reencontro definitivo com amigos e família com uma dose de incerteza. O retorno ao Brasil após cinco anos aventurando a vida fora, foi sem dúvidas um momento ímpar. Foi mergulhar no claro, numa sensação boa, foi a certeza do amparo, da acolhida e do amor familiar. Diferente de quando você voa do seu ninho e vai desbravar o mundo. As incertezas do retorno eram naturais de quem não sabia como ia ser a reinserção no contexto de mercado de trabalho, a readaptação a uma nova realidade, de moradia, de locomoção, de tudo enfim. 


“O retorno foi programado e muito feliz. Foi fruto de uma escolha. Tinha naquele momento a certeza de uma decisão! “


O que nos movia naquele momento era muita garra e vontade de recomeçar a vida na nossa pátria. Para cada escolha, uma renúncia; como tudo se dá naturalmente na vida. E renunciamos ao convívio dos amigos feitos, a estrutura de vida já montada e a tudo mais. Foi bom!

Reconheço e agradeço o fato da vida sempre ser muito generosa comigo. Gosto de ler e sempre tive em casa pais que me ensinaram a caminhar no bem, buscar conhecimento e a consciência do poder da mente. Com o poder dos meus pensamentos sempre busquei atrair coisas positivas. Quando regressei ao Brasil sabia o que queria, em pouco tempo já estava reintegrada ao mercado de trabalho e muito feliz! Nunca, até hoje, me tocou um pelo de arrependimento pelos cinco anos vividos no exterior. Ao contrário, as lembranças são constantes, os aprendizados valiosos e hoje vejo que ter aprimorado dois idiomas e a vasta experiência que tive exercendo muitas atividades “fora do meu contexto” só agregou ao meu currículo e à minha vida. Nunca fiquei desempregada e hoje exerço minha profissão de maneira plena. Sou bem remunerada e tenho mais segurança para atuar e crescer profissionalmente. Sinceramente não vejo razão para me lamentar de qualquer circunstância, tudo foi fruto das minhas escolhas, com dor ou sem dor, eu escolhi esse caminho.

Nesse processo de retorno ao Brasil, as comparações foram inevitáveis, a mudança de padrão de vida também me chocou. O preço das coisas em Salvador, minha cidade natal, (roupas, alimentação, moradia, a corrupção social, a violência tudo!) lembro que me deixava indignada!
“A língua que se ouvia lá fora se dissolvia aos poucos, as músicas e os chamados no metrô foram esquecidos aos poucos também, os cheiros das ruas e o estilo das pessoas também vão sumindo que nem fumaça, as estruturas das casas, as comidas, o paladar, os costumes diários, a rotina….tudo mudou! “

Ser acolhida pela família e recomeçar sonhos, foi também maravilhoso. A “readaptação” se deu de forma tranquila e gradativa. Eu estava de volta para casa e a sensação de não ser mais “imigrante” é saudável e incomparável. 

Mais do que recordações, mais do que a experiências e bagagens, quando regressamos a nossa pátria, temos a oportunidade de refletir sobre o valor da relação em família e o valor de pequenas coisas que já não fazem parte da nossa rotina lá fora. Somos agraciados pela vida e pelo tempo com um grande aprendizado: a felicidade mora em você, tudo que temos é construção íntima e busca interior, então, em qualquer viagem que se proponha a fazer, acredito que o coração é nossa principal bagagem.

A vida me diz sempre: esteja com o coração aberto e se permita receber o que tem de melhor que tenho a lhe oferecer.  Tenha fé! Seja positivo, sua mente é o seu maior império: atraia coisas boas e acredite nada lhe acontece por acaso.
Valeu cada dia vivido fora da pátria amada!


Está valendo estar de volta, já estou há quase seis anos em casa!!
Quando a saudade bate, revejo fotografias, converso  com os amigos e planejo novas viagens!
Obrigada por esse espaço para trocar experiências e tocar num tema que mexe muito com minhas emoções.
CMFS

4 Comentários

  1. viver é melhor do que sonhar, tornar um sonho possível requer além de coragem , fé e garra dispreender-se do real ,do que é considerado certo , do que é convincente. A sociedade nos impõem regras, por isso precisamos romper nossas próprias barreiras nos despir de tabus e sentimentos aculturados, somos suficientes e a medida que entendemos isso os grandes sonhos se tornam cada vez mais reais e aí como uma onda vamos atravessando continentes levando na bagagem só experiências e expectativas. Seja qual for a mudança, seja qual for o sofrimento, seja qual for o crescimento , estarei sempre on line!

    16 de junho de 2015
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  2. Nane Abreu said:

    O retorno não é fácil, aliás o desapego não é tarefa fácil. Tanto o ir como voltar trás um frio na barriga. E quando o retorno é prematuro ai dá uma impressão de andar pra trás. Mas o importante é sonhar sempre!

    16 de junho de 2015
    Responder
  3. Tata Cunha said:

    Entendo isso. E olha que tive uma pequeníssima experiência. Imagino quem fica for de casa por anos. Além disso, uma coisa é você escolher a outra é ter que mudar os planos.

    16 de junho de 2015
    Responder

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